As reações cromogênicas são amplamente utilizadas na microbiologia clínica e industrial para a identificação e diferenciação de microrganismos. Esses processos envolvem substratos cromogênicos que, ao serem hidrolisados por enzimas específicas produzidas por determinadas espécies bacterianas, geram colorações distintas nas colônias — um recurso visual e bioquímico essencial para a triagem laboratorial.
Como toda reação química, as reações cromogênicas são influenciadas por múltiplas variáveis, que podem afetar a expressão de cor e a intensidade das colônias observadas.
Fatores que influenciam as reações cromogênicas
Entre as principais variáveis que interferem no desempenho de um meio cromogênico estão:
- Concentração e atividade enzimática das cepas;
- Mutações genéticas dos microrganismos;
- pH da amostra;
- Tempo e temperatura de incubação;
- Fisiologia do paciente;
- Interferências da presença de outros microrganismos;
- Troca de plasmídeos entre diferentes cepas.
Esses fatores podem alterar o desenvolvimento das cores esperadas, pois existe um padrão cromático esperado para cada microrganismo ou grupo de microrganismos, com variações aceitáveis dentro de um intervalo específico.
Exemplos de reações cromogênicas em diferentes microrganismos
Escherichia coli
As cepas de E. coli produzem a enzima ß-glucuronidase, codificada pelo gene uidA, que hidrolisa o substrato cromogênico liberando o cromógeno responsável pela coloração magenta. A intensidade da cor pode variar conforme a concentração da enzima e o tempo de incubação.

Klebsiella pneumoniae e Klebsiella quasipneumoniae
Essas espécies sintetizam enzimas derivadas da galactose, que ao hidrolisar o substrato cromogênico conferem colorações que variam do verde-escuro ao azul metálico. A reação decorre da quebra da ligação glicosídica entre o cromógeno e os açúcares, liberando o pigmento antes insolúvel. Variações internas de cor podem ocorrer dentro da mesma cultura.

Citrobacter freundii
Integrante do grupo KESC (Klebsiella, Enterobacter, Serratia e Citrobacter), reage a dois substratos distintos — ß-glucuronidase e ß-galactosidase — resultando inicialmente em colorações magenta, que podem migrar para tons de verde conforme o tempo de incubação. O período de incubação é determinante para a correta expressão cromogênica.

Enterobacter sp. e Klebsiella aerogenes
Também pertencentes ao grupo KESC (Klebsiella, Enterobacter, Serratia e Citrobacter), essas bactérias reagem aos mesmos substratos (ß-glucuronidase e ß-galactosidase), mas geralmente apresentam colorações verde-azuladas, devido à menor atividade de ß-glucuronidase. As colônias tendem a ser mais planas, menos mucosas e com tonalidades mais escuras.

Grupo PPM: Proteus mirabilis, Providencia sp. e Morganella sp.
Esses microrganismos reagem principalmente ao triptofano, formando colônias em tonalidades creme a amareladas, frequentemente acompanhadas por um halo marrom ao redor, cuja intensidade depende do microrganismo e do tempo de incubação.
Cepas de Proteus sp. tendem a gerar halos mais intensos que as demais, resultado de reações secundárias associadas à degradação de glicosídeos e à atividade de β-galactosidase observada em Providencia sp. e Morganella sp. Durante o crescimento, ocorre a conversão do Triptofano em Indol, Piruvato e Amônia, produzindo um precipitado na base da placa, que se torna mais evidente com o avanço da incubação.

Proteus vulgaris
Embora pertença ao grupo PPM, P. vulgaris apresenta reação diferenciada devido à ação simultânea da ß-galactosidase, que confere coloração esverdeada às colônias. O comportamento enzimático gera halos mais intensos e pode alterar a aparência morfológica ao longo da incubação.

Pseudomonas aeruginosa
Essa espécie não possui as principais enzimas cromogênicas (ß-glucuronidase e ß-galactosidase), dependendo da produção natural dos pigmentos piocianina e pioverdina. Esses compostos interagem com fosfatases e esterases, gerando uma coloração característica. O pH levemente alcalino do meio cromogênico pode limitar o desenvolvimento de cores mais intensas.

Enterococcus faecalis
Reage a enzimas como esterases e ß-glucuronidase, liberando uma coloração verde influenciada pelo pH do meio. As colônias são pequenas e tendem a se expandir e escurecer com o prolongamento da incubação. Pela sua morfologia em cadeias curtas, apresenta certa capacidade de infiltração no meio de cultura.

Enterococcus faecium
Produz esterases e ß-glucuronidase, liberando colorações azuladas ou azul-esverdeadas. Apesar de atuar sobre os mesmos substratos que E. faecalis, a diferença de tonalidade decorre de variações tautométricas do cromógeno. Essa espécie é ligeiramente menor, com maior capacidade de infiltração.

Staphylococcus saprophyticus
Reage a esterases e ß-glucuronidase, resultando em pigmentações magenta ou rosadas. O prolongamento da incubação intensifica a coloração e o tamanho das colônias. Em condições específicas, podem ocorrer colorações tardias ou diluídas.

Staphylococcus aureus
Em meios cromogênicos, Staphylococcus aureus apresenta reações associadas à atividade de enzimas como esterases e β-glucuronidase. Por ser um microrganismo coagulase-positivo, também sintetiza carotenoides, responsáveis pela coloração dourada característica de suas colônias. Normalmente, observam-se tonalidades amareladas que se intensificam conforme o tempo de incubação aumenta.
Essas reações enzimáticas podem limitar o tamanho das colônias, tornando-as menores e bem definidas nas fases iniciais. À medida que a incubação prossegue, a atividade cromogênica continua, resultando em colônias mais escuras e ligeiramente maiores.
Em alguns casos, variações ambientais — como o tipo de meio, condições de amostra ou características mutantes da cepa — podem provocar colorações mais suaves ou tardias. Mesmo entre cepas padrão, há diferenças perceptíveis: a cepa ATCC 43300 tende a produzir pigmentação mais intensa do que a ATCC 25923. Além disso, devido à clivagem lenta da β-glucuronidase, podem surgir traços róseos tardios em determinadas condições.

Staphylococcus epidermidis
Mesmo sendo coagulase negativa, apresenta comportamento similar ao S. aureus, sintetizando carotenoides lentamente e exibindo colorações amarelo-douradas mais opacas. As reações continuam durante a incubação, podendo originar tons róseos tardios devido à clivagem lenta da ß-glucuronidase.

Streptococcus agalactiae
Expressa enzimas como esterases, glicosidases e ß-glucuronidase, conferindo coloração de incolor a verde-água. A baixa atividade enzimática e sensibilidade ao pH podem causar desenvolvimento cromogênico lento. Para otimizar o crescimento, recomenda-se o uso de meios enriquecidos ou repiques de colônias isoladas.

Impactos do tempo de incubação nas reações cromogênicas
O tempo de incubação é um dos fatores mais críticos para a leitura correta das reações cromogênicas.
- Incubações curtas podem resultar em colorações fracas ou incompletas, por não permitir a clivagem total dos substratos.
- Incubações prolongadas, por outro lado, podem intensificar excessivamente as cores, causar alterações morfológicas nas colônias ou até formar halos pigmentados no entorno — fenômeno observado em culturas com alta carga bacteriana.
A migração da coloração pode ocorrer do centro para as extremidades da colônia ou vice-versa, dependendo da concentração e difusão das enzimas.
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